A camada de aplicações e conteúdos envolve diversos mercados específicos. Nessa parte do trabalho buscaremos apresentar uma radiografia sintética destes setores em âmbito mundial como contexto para a análise da situação brasileira. Este mapeamento não é uniforme, pois depende dos dados e informações disponíveis sobre cada uma das atividades. Outro desafio é a compreensão da camada como um todo, uma vez que as estatísticas e comparações são realizadas em geral por cada mercado específico, e não considerando todo este universo.

Estes usuários têm vivido uma mudança no perfil dos conteúdos e serviços consumidos na web. Os últimos anos foram marcados pelo ascenso das plataformas. Segundo o banco de dados sobre a Internet Alexa[1], do conglomerado Amazon, o ranking dos sites mais visitados do mundo é dominado pelas gigantes Google, YouTube, Facebook, Baidu, QQ, Yahoo, Reddit, Twitter e Live.com (Microsoft). Plataformas talvez menos conhecidas como Baidu e QQ possuem grande volume de acessos por atenderem ao mercado do país mais populoso do mundo, a China (incluindo também as comunidades de migrantes residentes em países estrangeiros).

20 sites mais acessados

Todos são “plataformas”, conforme definido na seção anterior;

Quatro (20%) são da Google/Alphabet (Google.com, YouTube, Google.com.in, Google.com.jp);

Doze (60%) são estadunidenses (sendo um voltado ao público indiano e outro ao japonês), sete (35%) são chineses e um (5%) é russo ;

Quatro são plataformas centradas em mecanismos de busca (Google.com, as versões do site para Índia e Japão, e Baidu), quatro são plataformas de comércio eletrônico (Amazon e os chineses Taobao, Tmall e JoyBuy), quatro são redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram e a russa VK), três são plataformas de circulação de conteúdos (YouTube, Reddit e Wikipedia), três são plataformas e portais multisserviços (os chineses QQ.com, Sohu e Sina e o Live.com, da Microsoft).

Dezenove (95%) possuem finalidade comercial, com a exceção do Wikipedia, mantido por uma fundação sem fins lucrativos.

O mercado de sistemas operacionais é bastante concentrado. Se considerada a venda de desktops com esses recursos instalados, a Google controla mais de 80% das transações com o Android, enquanto a Apple é responsável por aproximadamente 15% com o IoS (MEEKER, 2017).

No móvel, o controle é absoluto da Android. Se considerado o acesso à web, as conexões realizadas por meio do SO Android, da Google, representam 71,6%; as operadas por meio do SO iOS, da Apple, totalizam 19,6%; e as baseadas em outros sistemas somam 8,8% (WE ARE SOCIAL, 2017).

No segmento de aplicativos, houve uma explosão de oferta nos últimos anos. Segundo o site de estatísticas Statista (2017), o número de apps na loja da Apple saltou de 201 mil em 2010 para 3,1 milhões em 2017 . Na loja do sistema operacional Android (Play Store), o número de ofertas subiu de 70 mil em 2010 para 3,3 milhões em 2017 . Após 150 bilhões de downloads em 2016, a estimativa é que o número chegue a 197 bilhões e 352 bilhões em 2012 . Em uma visão geral, quando considerados os gratuitos, os apps mais baixados são as redes sociais (incluindo mensageiros):

Aplicativos gratuitos e não jogos por número de downloads

WhatsApp
Rede social
Facebook
Rede Social
Instagram
Rede Social
Snapchat
Rede Social
UC Browser
Navegador
Uber
Mobilidade
YouTube
Conteúdo
ShareIt
Arquivos
Bitmoji
Rede Social
Fonte: SensorTower, 2017

Pesquisa da consultoria ComScore (2017) realizada no mercado estadunidense apontou que metade do tempo gasto em mídias digitais se dá em aplicativos móveis. Desse, metade do tempo é gasto no aplicativo mais usado pelo usuário e os top 10 consomem 95% do tempo de uso. Ou seja, a despeito da multiplicidade da oferta, os usuários concentram seu consumo em apenas poucos aplicativos. Se considerados os grupos econômicos, o Facebook é responsável pelos três primeiros (WhatsApp, o próprio Facebook e o Instagram), mostrando uma posição importante nesse mercado.

Quando a análise é feita olhando os agentes econômicos, a emergência do fenômeno denominado de “Big Techs” nos EUA fica visível. Se comparadas a outros setores da economia, empresas com negócios na camada de conteúdo (sejam eles aplicativos, plataformas ou websites) alcançaram posições de destaque em rankings das maiores companhias do mundo. No ranking Forbes 500, da revista de mesmo nome, quatro das cinco principais marcas são dessa área: Apple, Google/Alphabet, Microsoft e Facebook (FORBES, 2017). Soma-se a esse grupo a Amazon, na sexta colocação. A capitalização das sete principais plataformas é equivalente a todo o universo do grupo de conglomerados europeus denominado Euro Stoxx 50 (ROLAND BERGER, 2017, p. 17). Em que pese haver rankings diferentes , esse desempenho não é de modo algum desprezível e sinaliza para a relevância econômica dessas empresas. De acordo com relatório da consultoria Accenture (2016), a capitalização de mercado das 15 principais plataformas digitais totaliza US$ 2,6 trilhões, enquanto a das chamadas “unicórnios” (empresas que atingiram valor de mercado acima de US$ 2 bilhão) chega a US$ 500 bilhões, em um mercado de US$ 3 trilhões.

Fonte: Forbes 500 list

O relatório de tendências da Internet da notória pesquisadora do tema Mary Meeker destaca o crescimento acelerado das plataformas frente às demais companhias do setor. Entre 2015 e 2016, considerado o mercado dos Estados Unidos, o Facebook teve um aumento da sua receita com publicidade de 62% e o Google, de 20%. A evolução média das demais empresas ficou em 9% no mesmo período (MEEKER, 2017). O Facebook saiu de um faturamento de US$ 5 bilhões em 2012 para mais de US$ 27 bilhões em 2016 . Na Google, durante este mesmo período, as receitas cresceram de US$ 50 bilhões para US$ 89 bilhões . Na Amazon, foram de US$ 61 bilhões para US$ 107 bilhões. A companhia, inicialmente voltada ao comércio de livros, já é a terceira maior na venda de fraldas e a primeira na venda de baterias.

As redes sociais, um dos segmentos de plataformas digitais enfocados no presente trabalho, vêm experienciando crescimento vertiginoso, chegando a 2,789 bilhões de usuários em 2017, sendo 2,5 bilhões ativos (WE ARE SOCIAL, 2017), o equivalente a 34% da população mundial. A projeção é que esta penetração chegue a quase 3 bilhões até 2020 . Enquanto a Internet cresceu 10% entre 2016 e 2017, no caso das Redes Sociais o incremento foi de 21%.

Movimento ascendente semelhante vem ocorrendo no consumo de bens culturais. O mercado de vídeo online também vem crescendo de forma substantiva. Levantamento da consultoria Nielsen (2016) apontou que a contratação de serviços pagos de vídeo sob demanda já chega a 26% da população mundial. Este índice é maior na América do Norte (35%) e na região da Ásia e Pacífico (32%). Quando tomado o recorte geracional, a penetração do serviço é maior entre a faixa de 15 a 34 anos (31%) em comparação com parcelas mais idosas, como a de 50 a 64 (15%).

Pesquisa da consultoria Limelight realizada em 2017 em oito países (França, Alemanha, Índia, Filipinas, Cingapura, Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos) apontou que pessoas assistem, em média, a 5h45 por semana deste tipo de produto audiovisual. Na faixa de 18 a 25 anos, o consumo salta para 7h no mesmo período. A maioria do consumo ocorre em casa, mas os dispositivos móveis têm crescido como espaço de acesso a esses conteúdos. Em relação ao tipo de conteúdo, os filmes são os mais populares, seguidos de séries, programas jornalísticos e esportes.

O líder absoluto em número de usuários é o YouTube (1,5 bilhão). Contudo, esse número não reflete necessariamente uma diversidade dentro da plataforma. Pesquisa da consultoria Tubular (2017) apontou que 24% de criadores de conteúdos são responsáveis por 71% dos views. No Facebook, o percentual é ainda maior: 26% dos produtores ganham 77% dos views. Nas duas plataformas, as companhias com maior número de views são o Buzzfeed (4,2 bilhões no Facebook e 703 milhões no YouTube), LadBible (4,2 milhões no Facebook e 2,3 milhões no YouTube), Unilad (4 milhões no Facebook e 2,7 no YouTube), Jungle Creations (4 milhões no Facebook e 9 mil no YouTube) e Time Warner (1,9 milhão no Facebook e 1,3 milhão no YouTube) (TUBULAR, 2017). Se considerado o número de assinantes, os canais mais populares no YouTube são PewDiePie (58 milhões), YouTube Movies (54,1 milhões), HolaSoyGerman (32,6 milhões), JustinBieberVevo (32 milhões) e T-Series (28,7 milhões) .

Um levantamento do braço de pesquisa do banco Goldman Sachs (GOLDMAN SACHS RESEARCH, 2016) identificou preferências de consumidores de serviços de streaming. Segundo o estudo, as funcionalidades com maior diferencial são o tamanho do catálogo, a descoberta de novas músicas e artistas, o recurso de ouvir em diversos dispositivos e o apoio a artistas. Os consumidores que afirmaram pagar por estes serviços relataram como principais justificativas a conversão de períodos de testes (49%), a exclusão de anúncios (29%) e o acesso móvel (27%). Uma pesquisa (TIVO, 2017) apontou que o movimento de abandono dos pacotes de TV paga é motivado fundamentalmente pelos preços e pela opção de troca por um serviço de streaming na Internet.

No streaming de vídeo, o Netflix é o serviço especializado pago que desponta. Entre 2011 e 2016, enquanto o número de minutos de programação caiu nas principais programadoras dos Estados Unidos (como NBC Universal, Disney, 21st Century Fox e Time Warner), no Netflix ele aumentou 669% (MEEKER, 2017). A empresa, criada em 1999, começou a ganhar clientes em 2006 em um movimento de ascensão a partir de 2012, chegando a quase 100 milhões de assinantes neste ano (MEEKER, 2017). Nesse mesmo período, as receitas do serviço saltaram de US$ 600 milhões para US$ 3 bilhões.

Em levantamento da TIVO (2017) com telespectadores nos Estados Unidos e Canadá, o Netflix foi o serviço de vídeo sob demanda por assinatura mais popular (53,6%), seguido do Amazon Video (21,6%), Hulu (15,7%) e HBO Now (5,6%). Entre as razões dos usuários para esta escolha estão a possibilidade de criar perfis individuais (58,9%), o preço (56%), o autoplay do próximo episódio (46,4%) e o mecanismo de busca (44,5%). A pesquisa também revelou, nesta região, a penetração alta deste tipo de serviço: 94% afirmaram ser assinantes de alguma das empresas no mercado.

Embora em número de usuários o Netflix ainda esteja distante de outras plataformas, especialmente do YouTube (1,5 bilhão), o consumo intensivo do serviço pode ser percebido quando analisado o tráfego de dados na Rede. Relatório da empresa Sandvine sobre a Internet nas Américas registrou que, na América do Norte, em horários de pico, o Netflix é a empresa com maior participação em downloads e uploads nas redes fixas (32,7%), seguida do YouTube (17,3%) (SANDVINE, 2016). Outros serviços possuem participação significativamente menor, como Amazon Video (4%), BitTorrent (2,8%), iTunes (2,67%) e Hulu (2,4%). Quando considerada a banda larga móvel, marcada por franquias, a liderança passa a ser do YouTube (19,1%), seguido do Facebook (14%), Instagram (6,3%), Snapchat (5%), Google Cloud (3,5%) e Netflix (3,4%). Já na América Latina, a Netflix perde terreno, com o ranking formado nas redes fixas por YouTube (25,9%), BitTorrent (10%) e Netflix (7,45%), e nas redes móveis por YouTube (23,9%), Facebook (23,5%) e WhatsApp (7,4%).

No áudio, o ascenso do digital teve efeito ainda mais devastador. Em 2006, a receita com vendas de CDs e outras unidades físicas foi de US$ 16,3 bilhões, contra US$ 2,1 bilhões arrecadados com formatos digitais (IFPI, 2017). Dez anos depois, a receita com mídias físicas havia caído para US$ 5,4 bilhões e a do segmento digital, alcançado US$ 7,8 bilhões, representando 50% do total do faturamento do setor. Em 2016, esse conjunto de receitas cresceu 5,9% em relação ao ano anterior. Em um primeiro momento, nos anos 2000, o modelo prevalente foi o de download de músicas.

Mais recentemente, assim como no vídeo, o streaming ganhou espaço. Em 2016, o crescimento da renda do segmento foi de 60%, dez vezes maior do que o desempenho médio da indústria fonográfica (INFPI, 2017). O relatório da IFPI estima a existência de 112 milhões de pessoas fazendo uso desse serviço. Um dos mercados emergentes é a China. O serviço Tencent Music, da empresa responsável pelas maiores plataformas do país, como WeChat e QQ, já possui 15 milhões de assinantes.

Os artistas com mais vendas em 2016 foram Drake, David Bowie, Coldplay, Adele, Justin Bieber, Twenty One Pilots, Beyoncé, Rihanna, Prince e The Weekend. Nota-se aí uma clara centralização geográfica em cantores e bandas anglófonas, em sua grande maioria dos Estados Unidos. Um caso que ilustra esta hierarquia é o do sucesso de 2017 “Despacito”, de Luís Fonsi. A música teve de ganhar uma versão com a presença de um artista famoso estadunidense, Justin Bieber, para decolar no mercado do país e internacionalmente.

O Spotify aparece como principal plataforma especializada em streaming de áudio. Entre 2010 e 2016, a empresa saiu de 0 para 60 milhões de assinantes. No mesmo período, as receitas chegaram a €3 bilhões (MEEKER, 2017). Em 2017, os assinantes ouviam em média 40 artistas por semana, contra 30 em 2014. Em segundo lugar no mercado está a Apple Music, com 27 milhões de assinantes (DUNN, 2017). Se observado o consumo de streaming de áudio em geral, e não somente pago, o YouTube ascende como principal ator em razão de sua base de 1,5 bilhão de usuários.

1 Informação disponível em: https://www.alexa.com/topsites.
2 Number of available apps in the iTunes App Store from 2008 to 2017 (in 1,000s). Estatística disponível em: https://www.statista.com/statistics/268251/number-of-apps-in-the-itunes-app-store-since-2008/.
3 Number of available applications in the Google Play Store from December 2009 to September 2017. Estatística disponível em: https://www.statista.com/statistics/266210/number-of-available-applications-in-the-google-play-store/.
4 Number of mobile app downloads worldwide in 2016, 2017 and 2021 (in billions). Estatística disponível em: https://www.statista.com/statistics/271644/worldwide-free-and-paid-mobile-app-store-downloads/.
5 Top Apps of Q1 2017: Netflix Dominated Worldwide Revenue, Which Grew 63% YoY. SensorTower, 2017. Disponível em: https://sensortower.com/blog/top-apps-q1-2017
6 O ranking FORBES 500 leva em consideração o valor de mercado. Já o ranking FORBES Global 2000 combina valor de mercado com receitas, lucros e ativos.
7 Alibaba, Alphabet/Google, Amazon, Apple, Baidu, eBay, Facebook, JD.com, LinkedIn, Netflix, Priceline.com, Salesforce, Tencent, Twitter e Yahoo!.
8 Statista. Facebook’s annual revenue and net income from 2007 to 2016 (in million U.S. dollars). Disponível em: https://www.statista.com/statistics/277229/facebooks-annual-revenue-and-net-income/.
9 Statista. Google’s revenue worldwide from 2002 to 2016 (in billion U.S. dollars). Disponível em: https://www.statista.com/statistics/266206/googles-annual-global-revenue/.
10 Number of social media users worldwide 2010-2020. Statista. Disponível em: https://www.statista.com/statistics/278414/number-of-worldwide-social-network-users/. Acessado em 15 de junho de 2017.
1 Informação disponível em: https://socialblade.com/youtube/.
12 Quando o serviço é disponibilizado de forma gratuita por um período de teste e o usuário passa a contratá-lo posteriormente.