Natureza e características específicas de apps e conteúdos

A camada é baseada em dois tipos de bens de feições muito particulares: informação e cultura. A informação é considerada um bem “não exclusivo” e “não rival” (HERSCOVICI, 2012). A não exclusividade diz respeito à dificuldade de controle da apropriação dos agentes deste bem. A não rivalidade está vinculada à não extinção do bem quando do seu consumo. Diferentemente de um bolo, que some após ser comido, ou de um sapato, que se desgasta ao longo do tempo conforme é utilizado, a informação pode ser consumida por um alto número de pessoas, cujo grau depende da disponibilidade e da capacidade de acesso dos usuários. Isso porque ela pode ser copiada ao infinito a depender das capacidades de armazenamento e reprodução (uma pessoa pode ter acesso a um vídeo se tiver um dispositivo e a um programa que permitam a sua execução). Hess e Ostrom (2003) argumentam que isso torna a informação um “bem comum”.

Outra característica é a possibilidade de fruição por múltiplas pessoas ao mesmo tempo. Enquanto um carro só pode ser dirigido por uma pessoa por vez, um texto pode ser lido por milhões de pessoas ao mesmo tempo, potencializando sua circulação e realização. Sob a lógica capitalista, surge um movimento dos detentores dessa informação (não necessariamente seus produtores) de imposição de restrições, usando direitos de propriedade intelectual (DPI), visando limitar o acesso a elas. O objetivo é criar uma “escassez artificial” (GARNHAM, 1990) para possibilitar a monetização sob o consumo desse bem. Do outro lado, há formas de resistência na sociedade civil para ampliar o acesso ao maior número possível de informações, seja por pleitos formais seja pela prática social (como é o caso da chamada “pirataria”).

Um determinante das formas de apropriação da informação é o seu suporte físico. Um livro, por exemplo, pode ser lido por uma pessoa, enquanto um programa de TV pode ser assistido por milhões. A digitalização permitiu um alto patamar de manejo e reprodução das informações ao transformar o conteúdo destas em 0s e 1s, quase descolando essas de uma base física (NEGROPONTE, 1995). A Internet é o ápice desse processo, sendo uma rede potencializadora da produção, circulação e consumo desses dados digitalizados. Com a disseminação de computadores e smartphones, cresceram também as possibilidades de elaboração, difusão e fruição de informações na web. O surgimento dos sites de redes sociais simplificou esse processo ao permitir a criação de perfis com potencial de publicação de conteúdos em texto, imagem, som e áudio.

Os bens culturais também possuem entre seus traços o caráter não exclusivo e não rival. Como expressões simbólicas do fazer humano, a esses atributos devemos acrescentar o caráter aleatório do seu conteúdo. Diferentemente de uma casa, que de alguma forma supre uma necessidade material de abrigo, uma música ou obra de arte pode não atender à demanda simbólica de ninguém. Também por esta dimensão simbólica, esses bens podem ser reproduzidos de maneira ampla, característica marcante do processo de industrialização dessa área sob o capitalismo (BENJAMIN, 1936/2000). Esta apropriação para fins de comercialização, naquilo que alguns autores chamaram de Indústria Cultural, configurou um movimento de homogeneização dos formatos e conteúdos visando a alcançar o gosto médio e a reduzir o caráter aleatório. O entretenimento foi alçado à condição de gênero hegemônico e a fruição foi reforçada como uma relação passiva (ADORNO, 1985). O conteúdo é em sua maioria não somente acrítico, mas ativamente conectado à legitimação dos pilares do sistema, estimulando a valorização do individualismo, do mercado e do lucro em detrimento dos direitos humanos e da justiça social. Esse fenômeno não se deu de forma monolítica ou sem tensões, pelo contrário. O século XX foi palco de intensas disputas também no campo da cultura, em um confronto entre homogeneidade e diversidade. O reconhecimento da existência dessas formas, contudo, não implicou uma redução da condição hegemônica da forma cultural industrializada.

Cadeias de valor

A economia da camada de aplicações e conteúdos da Internet é constituída a partir da lógica de três segmentos: o de softwares, o de bens culturais e o de mídia. O primeiro, de softwares, envolve os desafios já elencados para o caso da informação. O modelo adotado historicamente foi o da venda de “licenças de uso” como forma de limitar a possibilidade de cópia e repasse do programa por um usuário a outros. Em alguns casos, essas licenças limitavam inclusive os dispositivos nos quais o software poderia ser utilizado. Neste mercado, os direitos de propriedade intelectual têm função central como forma de reprimir a reprodução. Eles orientaram a produção de regras que tornaram o livre compartilhamento ilegal, prática chamada comumente de “pirataria”.

Outra tensão dentro do setor é a existência de programas gratuitos, feitos por equipes de desenvolvedores questionadores da lógica mercantil na área. Com a evolução de smartphones e o aprofundamento da lógica de aplicações para as atividades mais simples, houve uma ampliação do mercado desses produtos e um consequente acirramento da concorrência. Tal cenário ensejou o surgimento de novas estratégias, oferecendo aplicações gratuitas para obter receitas por outras fontes, como via anúncios publicitários.

A economia dos bens culturais se organiza, sob o capitalismo, segundo lógicas sociais específicas (TREMBLAY, 1997). A lógica editorial envolve, por exemplo, a venda de obras únicas (como CDs ou filmes), em um consumo individual e irregular. O editor tem o poder de escolher quais obras vão ser ofertadas no mercado e o seu perfil, agindo como intermediário central. O financiamento é feito por meio da venda direta dos produtos. A lógica impressa está relacionada a produtos seriados (como jornais e revistas), cuja difusão é descontínua mas regular, com consumo semi-individual. O modelo de negócios está calcado na combinação entre venda direta e publicidade. Nesses dois exemplos, o suporte físico importa (com a venda de unidades como discos ou edições impressas), colocando questões importantes de armazenamento e distribuição.

Na lógica de onda, marca da TV e do rádio, há uma difusão contínua e regular e o consumo é semi-individual. A programação organiza a forma como o conteúdo é apresentado ao espectador. Os custos de produção (pela diferenciação necessária à conquista da audiência) e de transmissão (pela malha de geradoras e retransmissoras a ser espalhada no território) são altos, enquanto o custo por usuário é baixo e não variável (um programa transmitido pode chegar a três ou dois milhões de pessoas). O financiamento, no caso brasileiro, se dá por uma mercadoria especial: a audiência. O modelo de negócios consiste em atrair audiência por meio de programas para veicular anúncios. A dinâmica se baseia na captura da atenção e fidelização desta, objetivo que enseja uma série de estratégias por parte dos agentes .

Já a lógica da Internet configuraria aquilo que Tremblay chama de lógica de “clube”. Nela, os usuários pagam para acessar um conjunto de conteúdos e serviços ofertados de maneira integrada. As iniciativas mercantis combinam venda de produtos e serviços e receitas via publicidade. Em uma primeira etapa, o consumo desses produtos era monetizado pelo tempo de conexão (na infraestrutura ainda vinculada a linhas telefônicas). Uma vez que o custo era impactado por este elemento, a capacidade de fruição dos usuários era limitada por esse quesito. Uma segunda etapa, a partir da conexão por redes mais recentes (como ADSL e cabos coaxiais), alterou o custo para pacotes em função de diferentes velocidades, assegurando a possibilidade de uso por qualquer tempo. A diferença da experiência estava na velocidade do fluxo de dados, o que impactava, por exemplo, ainda na fruição de conteúdos contínuos, como streaming. Para o carregamento de arquivos, a diferença era o tempo de espera por eles.

Esse modelo permanece, mas passou a coexistir com o de franquias, no qual o custo é vinculado à quantidade de dados consumida. Mais comum na banda larga móvel, este paradigma começa a ser pautado pelas operadoras de infraestrutura no conjunto da web, como forma de ampliar as rendas, decorrentes da majoração dos fluxos de dados pelo acesso a informações e serviços cada vez mais “pesados” . No Brasil, o quadro é de pacotes não limitados ou com altas franquias (que na prática não limitam o consumo) para os usuários de banda larga fixa e de franquias mais limitadas para quem navega usando conexões móveis.

Este acesso só existe porque a web constitui uma “utilidade social” (HERSCOVICI, 2009) organizada a partir das redes que se constituem na Internet. Os usuários acessam informação diretamente, mas o fazem cada vez mais a partir de redes ou repassando, compartilhando e alimentando redes próprias e derivadas. Coloca-se aí um aparente paradoxo: o bem informação é público e de fruição coletiva, mas a estruturação da Internet sob a lógica capitalista se dá sob intensa tentativa de apropriação em dinâmicas de escassez artificial pelos agentes do mercado e de consolidação da imposição de formas de consumo privado pelos usuários, mesmo que dentro de espaços de interação coletiva.

A lógica econômica da Internet de “clube” permanece, em se considerando a necessidade de pagar pelo acesso. Mas, mesmo ultrapassando essa barreira para os conectados, em que pese a oferta de conteúdos gratuitos, a dinâmica de exigir uma “credencial” para usufruir de um espaço ou serviço se multiplica, seja essa um cadastro (para ler uma matéria em um site noticioso), a criação de um perfil (em uma rede social) ou até mesmo o pagamento por um serviço (como Netflix e Spotify). A lógica da web é marcada, assim, pela constante tensão entre este esforço dos grandes provedores de conteúdo e intermediários de constituir “jardins murados” (a partir da escassez artificial e da tentativa de controlar o acesso a outros conteúdos “dentro desses jardins”) e a possibilidade dos usuários produzirem e publicarem conteúdos de fácil acesso para quem está conectado.

Essa multiplicidade de informações disponíveis criou um problema inverso ao da radiodifusão: o obstáculo não está em produzir, mas em conseguir agregar conteúdos constituindo referência para serem lidos ou acessados. A web levou a economia da atenção a um novo patamar, tratando não apenas da fruição de notícias ou obras audiovisuais, mas da realização das mais variadas atividades. Isso conferiu aos intermediários papel fundamental, o que se refletiu no ascenso dos portais. Mesmo o conteúdo carregado de maneira tratada como ilegal precisou de sites e sistemas centralizados, como no caso dos sites históricos Napster e Megaupload. Em um segundo momento, entram em cena novos atores: as plataformas. Por meio de diversos serviços, elas passaram a ser portas de entrada e filtros importantes seja da fruição de conteúdos seja da interação com os demais usuários. Os mecanismos de busca e as redes sociais são dois bons exemplos. Nas aplicações, esse papel passou a ser desempenhado pelas lojas virtuais, como “Play Store” e “Apple Store”.

Cadeia de Valor da Camada de Aplicações e Conteúdo

Desenvolvimento

Diz respeito ao desenvolvimento da aplicação ou realização do conteúdo. Envolve aí o processo criativo em si, seu controle (por meio de direitos de propriedade intelectual ou autorais) e a fixação da forma final deste. Traz dentro de si as seguintes subetapas:

  • Elaboração– Está relacionada à criação propriamente dita, como a redação de um texto, design de uma imagem ou gravação de uma música, por exemplo). Pode se dar de maneira profissional ou não profissional, já pensada em relação ao conjunto da cadeia (como um álbum a ser ofertado no Spotify) ou realizado como fim em si mesmo (um vídeo publicado em um perfil de rede social);
  • Edição– Envolve a definição da forma de apresentação do conteúdo criado, que pode se dar antes ou depois da sua finalização. Define a linha artística ou informativa, a hierarquias dos requisitos, critérios e elementos dentro do conteúdo. Pode ocorrer no âmbito de uma unidade específica de conteúdo (como uma reportagem jornalística), de um produto (programa) ou série de produtos (canal no YouTube);
  • Organização–  Diz respeito à disposição do conteúdo em unidades, seções, produtos ou espaços específicos. Pode ser, por exemplo, a estruturação das informações de um site, a montagem de um catálogo de vídeos (em um canal específico ou em uma plataforma como um todo) ou a elaboração de uma playlist.

Disponibilização

Após ser criado e ganhar sua forma final, o conteúdo (seja ele em unidade, em série ou em estrutura mais complexa) precisa ser disponibilizado ao usuário para que esse possa acessá-lo. Isso pode se dar desde a oferta em uma loja, no caso das aplicações, até a publicação de um site, passando por uma postagem em uma rede social. Esse processo pode se dar de diferentes maneiras. Essa é talvez a etapa mais complexa da cadeia de valor. A despeito dessa diversidade, há algumas subetapas comuns:

  • Publicação– Ato em que o conteúdo se torna “público” na Rede Mundial de Computadores, ganhando a condição de ser acessado por usuários, seja em modelos abertos ou condicionados (por senha, pagamento ou algum outro mecanismo de restrição). Para aplicativos, a publicação se dá no momento em que o usuário passa a ter a possibilidade de fazer o carregamento em seu dispositivo, o que ocorre em geral nas lojas de apps. No caso de sites, a subetapa inclui a hospedagem em servidor e a designação do endereço.
  • Agregação– Processo em que um ou mais conteúdos são reunidos em algum espaço específico, que serve como “porta de entrada” para esses. Essa agregação pode ter diferentes graus de unidade e diferenciação.

Circulação

A circulação envolve o movimento do conteúdo relativo à sua disseminação e ampliação da visibilidade junto aos usuários. É nessa etapa que se dá a ligação entre o conteúdo disponibilizado e o usuário. Na dimensão física, está o transporte de dados até os dispositivos onde se dá o acesso. Na dimensão simbólica, a circulação não é condição para a fruição de um conteúdo (como a distribuição o é na cadeia de valor das TVs aberta e paga), mas cumpre um papel importante ao enfrentar o obstáculo da disputa pela atenção. As redes sociais e os mecanismos de busca são intermediários-chave para a circulação de conteúdos.

Acesso

O acesso é o movimento final, no qual o usuário realiza efetivamente a fruição do conteúdo ou aplicação. Esse ato envolve um dispositivo e uma interface. Em alguns casos, ele pode se dar em circuito fechado, em que o dispositivo ou é base ou condiciona as informações disponibilizadas (como na Apple TV), ou aberto, quando há, por exemplo, a visitação a um site que pode ser feita a partir de qualquer aparelho conectado à Internet.

Modelos de negócio

Historicamente, os conteúdos na Internet foram ofertados de forma gratuita. Pagava-se a conexão para ter acesso a informações. Em geral, o manancial de conteúdos na web foi construído de forma subsidiada por: 1) grupos com outros negócios na comunicação e que tiravam dessas suas receitas centrais (Globo.com, UOL, R7); 2) instituições públicas e organizações privadas que elaboram ou mantêm sites próprios; e 3) usuários e coletividades que publicam na web sem objetivos de lucro ou de exposição institucional. Já as aplicações têm sua raiz na indústria de softwares, marcadas, como já visto, pela venda de licenças de uso de versões específicas.

Atualmente, a gratuidade segue como modelo hegemônico. A sustentação ainda é feita em muitos casos de maneira subsidiada (como instituições bancárias que financiam todos os seus serviços online ofertados aos usuários com suas rendas tradicionais). Mas a principal fonte de renda é calcada na publicidade, com diversos tipos de anúncio, de banners a produtos próprios integrados ao serviço (como filtros patrocinados no Snapchat). Nesse tipo de receita, muitos sites se integraram às dinâmicas operadas por Google e Facebook, que veiculam anúncios mas, ao mesmo tempo, se tornaram agenciadores de publicidade online em outros sites, aplicativos e plataformas. A ampliação estrondosa de receitas dessas duas plataformas está vinculada à forma como elas conseguiram arregimentar e centralizar parte importante da publicidade online.

O poder dessas duas plataformas está exatamente em um elemento central da publicidade digital: a personalização. Diferentemente da era da TV e do rádio, em que anúncios eram difundidos em cadeia nacional para um público amplo, as plataformas processam “rastros digitais” deixados pelas atividades de seus usuários, como características demográficas, manifestações de interesse por meio do que é publicado ou compartilhado, interações como “likes”, imagens e qualquer outra informação produzida ou com a qual a pessoa tenha lidado de alguma forma.

Esse conjunto enorme de dados coletados é processado por programas inteligentes, como algoritmos e aqueles baseados em inteligência artificial, em cruzamentos que permitem um direcionamento bastante específico, e quase individualizado, da mensagem publicitária com base no público alvo desejado. Esses mecanismos buscam tornar mais efetivas a oferta e a realização das mercadorias. Além disso, a majoração das possibilidades de difusão dessas mensagens (inclusive para pequenos empresários ou profissionais liberais, que não precisam mais pagar tabelas altas de anúncios em TVs, por exemplo, ou até mesmo por pessoas físicas) gerou uma ampliação do mercado, alcançando quem antes não anunciava.

Com a evolução da web, novos modelos de negócios começaram a emergir, com uma influência cruzada dos modelos de negócio históricos. Nos websites, a cobrança pelo acesso passou a ser um paradigma cada vez mais difundido. Esta pode aparecer como condição para o conjunto do site ou serviço (como no Netflix) ou como exigência para o acesso a partir de determinado momento. É o caso do Globo Play, que assegura o acesso a conteúdos do dia mas cobra para que o internauta veja episódios anteriores de novelas e programas mais antigos ou produzidos especialmente para o site. Essa linha vem se multiplicando também em sites noticiosos, que permitem uma quantidade limitada de textos para leitura gratuita e cobram quando esse limite é superado, como ocorre no Brasil com os sites do jornal Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo ou com o Portal UOL. O caso da Folha é emblemático, já que o veículo conseguiu obter mais assinantes da edição digital do que da impressa.

Em uma análise a partir dos aplicativos mais baixados nas lojas online Play Store e Apple Store relacionados à produção, difusão e circulação de conteúdos , chegamos a um quadro marcado pela hegemonia da oferta gratuita e pelo financiamento via publicidade . O acesso condicionado pago – integral ou parcialmente – aparece especificamente nos sites de streaming de vídeo e áudio, como Netflix, Spotify, Globo Play e Deezer, sendo somente o primeiro em que essa exigência de pagamento é condição integral. Mecanismos adicionais podem ser vistos no Facebook, que taxa vendas feitas por meio da plataforma, e do Snapchat, que desenvolveu uma forma de promoção com filtros personalizados. No caso dos mensageiros, os modelos de financiamento ainda são mais incipientes. O FB Messenger começou a veicular anúncios no fim de 2017. O WhatsApp, embora não veicule anúncios, tem dados coletados para uso por seu controlador, o Facebook.

Aplicativos mais baixados nas lojas Play (Google) e Apple

No caso dos sites, o domínio do modelo calcado em gratuidade e publicidade também é visível. Este se dá tanto em plataformas como Facebook e Google quanto em sites de conteúdos noticiosos ou opinativos como Blastingnews.com.br, Explicandoo.com.br, otvfoco.com.br. Como já discutido anteriormente, há uma diferença grande entre esses dois tipos de agentes, uma vez que as plataformas citadas concentram boa parte das receitas com publicidade e se tornaram intermediários para a difusão de anúncios.

Na listagem abaixo, aparecem também portais multisserviço, como os da Microsoft (Live.com) e do Yahoo (Yahoo.com), que também veiculam publicidade, mas são fortemente subsidiados pelos respectivos conglomerados. O WordPress, como um espaço de hospedagem e desenvolvimento de sites, constrói seu modelo de negócios em cima da disponibilização de ferramentas para quem deseja construir sua página. Uma exceção no ranking é a presença do Wikipedia (também bem colocado nas listas mundiais), cujo financiamento é feito por meio de doações e projetos.

Sites mais acessados segundo o ranking Alexa

Estratégias de posicionamento das empresas

A camada de aplicações e conteúdos vem sendo objeto de intensa disputas por agentes econômicos. Ela vem se formando como o espaço de confluência em que conglomerados dos mais diversos segmentos da Internet e de indústrias pregressas (como as de mídia, telecomunicações e Tecnologias de Informação e Comunicação) passam a agir e buscar ampliar suas receitas, aprofundando o fenômeno da convergência já descrito anteriormente em todas as suas dimensões.

Um primeiro grupo da disputa é formado pelos provedores de conexão, popularmente conhecidos como teles. No caso brasileiro, a concentração no mercado levou a um quadro em que poucos conglomerados atuam nesse segmento: Telefônica/Vivo/GVT, Net/Claro/Embratel, OI e TIM. Todos eles possuem braços na camada de conteúdo, afirmando como a lógica de concorrência integrada pressiona os agentes a espraiarem-se por todas as etapas da cadeia. A Vivo oferece o Vivo Play, serviço de vídeo sob demanda que pode ser contratado juntamente aos seus pacotes de dados. A OI comercializa serviço semelhante e com o mesmo nome: Oi Play. A TIM disponibiliza a seus usuários um serviço de streaming de áudio, TIM Music, operado pela empresa Deezer. Esse exemplo mostra como a atuação na camada de conteúdo não precisa se dar necessariamente pela montagem de serviços próprios, mas em parceria com aqueles já estabelecidos. Já a NET/Claro/Embratel traz sua atuação no segmento de TV paga (assim como a Telefônica/Vivo) para ofertar vídeo sob demanda sob a marca NET Now. A companhia optou por uma segmentação e também implantou outra solução de VOD para os usuários de banda larga móvel denominada Claro Vídeo.

As operadoras veem nos provedores exclusivos de serviços na web sua grande ameaça. Em sua visão, elas são submetidas a maiores encargos financeiros e regulatórios enquanto tais agentes podem fazer seus negócios de maneira mais livre. As companhias vistas como principais concorrentes são as grandes plataformas. Frente ao ascenso destas, as operadoras desenvolveram algumas estratégias de combate. A primeira é o controle do tráfego de dados (como a já mencionada degradação de tráfego de um serviço concorrente), violando a chamada neutralidade de rede. Enquanto nos Estados Unidos a prática da degradação foi retomada em novembro de 2017 , no Brasil o princípio da neutralidade segue vigente, assegurado no Marco Civil da Internet. Uma tentativa de burlar a neutralidade é a oferta de serviços gratuitos. No Brasil, os provedores de conexão oferecem desde aplicativos populares como vantagem competitiva (e curiosamente de concorrentes como o Facebook e o WhatsApp) até seus próprios serviços (como o Claro Video) sem que isso desconte do pacote de dados contratado. Outra é a tentativa de institucionalizar as franquias (pacotes por volume de dados) na banda larga fixa.

Um segundo grupo que disputa a camada de conteúdo é formado pelos conglomerados de mídia previamente estabelecidos, cuja atuação passou a se dar também na Internet. Todos os principais grupos nessa indústria constituíram sites ou portais próprios, como o G1 da Globo, o R7 da Record, o Band.com.br da Bandeirantes. Esta ampliação do escopo veio acompanhada de tensões, uma vez que o crescimento do tempo de uso da Internet pode impactar a redução da audiência das mídias tradicionais, seus principais negócios . Esse movimento vem sendo problemático para os modelos de negócio de diversos grupos, sendo a área impressa a mais afetada – vide o desmonte do grupo Abril, o desmantelamento do grupo Diários Associados, o fim da circulação de publicações importantes, como a Gazeta do Povo (principal diário do Paraná) e o fechamento de diversos veículos pequenos. Levantamento realizado com 11 grandes jornais do país mostrou que o número de assinantes de edições impressas no país caiu de 1,3 milhão para 891 mil, enquanto o de assinaturas digitais subiu de 532 mil para 588 mil (PODER 360, 2017). Frente a esse cenário, diversos grupos apostaram no conteúdo pago (como Folha e Estadão), o que gerou ampliação dessa modalidade, mas ainda não em condições de compensar as perdas dos leitores tradicionais.

Já os grupos de TV aberta já vinham de uma concorrência com a TV paga, que chegou a 21,2 milhões de acessos em 2014 no país, mas vem enfrentando retração em razão da crise econômica. Dois milhões de clientes foram perdidos de lá para cá . Em que pese o cenário de dificuldade econômica ter freado também a expansão das conexões à web no país, os últimos anos evidenciaram uma migração de muitas pessoas para a Rede, com impactos diretos e indiretos, uma vez que esse movimento pode significar substituição ou complementaridade (naquilo que pesquisadores chamam de multitela). A Pesquisa Brasileira de Mídia, promovida pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), entrevista anualmente cidadãos para avaliar seus hábitos de consumo de comunicação. Enquanto em 2013 os principais meios de informação eram a TV (citada por 78% dos entrevistados) e a Internet (12%), na edição de 2016 a menção à TV caiu para 63% e à Internet subiu para 26% (SECOM, 2016).

Assim como no caso das operadoras de telecomunicações, os grupos de mídia também veem como principal ameaça os provedores de serviços e conteúdos na Internet, em especial as grandes plataformas. Essas ascenderam internacionalmente, como confirmam as listagens de principais aplicações baixadas e sites mais acessados. A elite das “Big Techs” (Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft) se constituiu em nichos específicos (o Google como mecanismo de busca, o Facebook como rede social, a Apple como fabricante de computadores e softwares, a Amazon como comerciante de livros e a Microsoft como desenvolvedora de sistemas operacionais e programas) para expandir seus negócios rumo a diversos segmentos na camada de aplicações e conteúdos.

O Google incluiu produtos audiovisuais na sua Play Store. Também adquiriu o YouTube e impulsionou a plataforma para ser a líder em streaming de vídeos. Lançou o AndroidTV, uma aplicação que oferece vídeos da Play Store, do YouTube e também outros streamings pagos, como Hulu e NBA. A Apple, por meio de seus circuitos tecnológicos fechados, usou sua base de clientes de dispositivos para garantir espaço para seus serviços de música (Apple Music) e vídeo (Apple TV). Este último envolve um dispositivo específico para se conectar a smartTVs, o empacotamento dos conteúdos do catálogo da sua Apple Store, a oferta de serviços concorrentes (como Amazon Prime Video, Hulu e Netflix) e, no futuro, produções próprias .

A Amazon compete com seu serviço Amazon Prime Video, que reúne produções próprias e catálogo de séries, filmes discos e músicas. A empresa coloca anualmente US$ 4,5 bilhões em obras originais, ficando atrás apenas do Netflix, cujo dispêndio para este fim alcança US$ 6 bilhões ao ano. O Facebook, que até anos recentes investia apenas no posicionamento como locus de publicação de vídeos por usuários da rede, reformatou sua estratégia para criar uma seção da linha do tempo do usuário denominada “Watch”, que deve combinar conteúdos próprios financiados pela companhia com vídeos de terceiros (NEWTON, 2017). A empresa também anunciou o intuito de investir perto de US$ 1 bilhão em produções audiovisuais originais (TIFFANY, 2017).

1 A ficção seriada é o mais clássico deles. Novelas, por exemplo, possuem grande duração como forma de
2 No Brasil, por exemplo, operadoras tentaram pressionar o Congresso a aprovar uma lei que institucionalizasse a prática. Mas a iniciativa enfrentou resistência de entidades da sociedade civil e de usuários e até o momento de fechamento desse documento não havia avançado.
3 A agregação pode se dar no caso de portais, que reúnem diversos sites. Pode ser um aplicativo jornalístico que seleciona notícias de distintos veículos ao usuário. Pode ser uma plataforma em que são disponibilizados tanto conteúdos individuais quanto estruturados em canais ou agrupados de outras maneiras (como a Amazon Video).
4 Segundo o jornal, das 316 mil edições vendidas em média diária, 51% foram da edição digital. FOLHA DE S. PAULO. Folha é o 1º jornal brasileiro a ter circulação digital maior do que a impressa. Folha de S. Paulo. Publicado em 25 de setembro de 2016. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/09/1816633-folha-e-o-1-jornal-do-pais-a-ter-circulacao-digital-maior-do-que-a-impressa.shtml.
5 Não foram incluídos, por exemplo, aplicativos de comércio eletrônico, de bancos ou de mobilidade.
6 Essas lojas disponibilizam aplicações pagas, mas o número de downloads na comparação com aquelas gratuitas é bastante inferior.
7 A Comissão Federal de Comunicações (FCC) revogou as regras que asseguravam a neutralidade de rede. A decisão causou muitas reações. Procuradores entraram com ações contra a medida. Parlamentares apresentaram projetos de lei para retomar a neutralidade de rede. E em assembleias legislativas de estados foram protocolados projetos para garantir a neutralidade.
8 Esta relação não é algo matemático. O acesso à Internet ocorre inclusive de forma simultânea ao ato de assistir TV, fenômeno que ganhou o nome de multitela. Diversas plataformas investem nessas possíveis complementaridades com serviços cruzados, como o Cartola FC da Globo.com para quem acompanha jogos na Globo ou no canal SportTV.
9 Associação Brasileira de TV por Assinatura. Dados do Setor. Disponível em: http://abta.org.br/dados_do_setor.asp.
10 A empresa anunciou que investirá no ano de 2018 US$ 1 bilhão em aquisição de direitos e produções próprias (ONG, 2017).