A Internet vem assumindo um papel cada vez maior na vida da sociedade, a despeito da quantidade representativa de pessoas ainda desconectadas. Essa importância crescente está relacionada ao tipo de atividades possíveis de serem realizadas neste espaço. Este processo vai da troca de mensagens e publicações em sites na chamada Internet 1.0 às interações, especialmente em redes sociais, na chamada Internet 2.0, chegando até a coordenação do conjunto de ações cotidianas na chamada Internet das Coisas.

Pela web é possível, por exemplo, programar um despertador, consultar a meteorologia para escolher que roupa usar, definir a melhor rota para dirigir ou o tempo do ônibus ou metrô, checar e-mails, desenvolver uma tarefa por um editor de texto, comunicar-se com chefes ou colegas de escritório por mensageiros (como WhatsApp, Facebook Messenger ou até mesmo programas específicos de empresas e organizações), verificar os melhores locais para se alimentar nas redondezas ou pedir uma refeição, realizar uma reunião por videoconferência, receber informações de portais ou indicações de notícias de amigos, combinar o transporte de filhos da escola pra casa, acionar eletrodomésticos em casa, tirar dúvidas sobre uma receita ou procedimento doméstico desconhecido, assistir a um filme ou programa audiovisual, ler um livro, conversar com familiares e amigos e ir dormir ajustando a luz e o volume do rádio ou da música. Esta lista é apenas um exemplo de como a Internet é cada vez mais invasiva em nossas dinâmicas cotidianas. Em muitos casos, isso não se dá de forma voluntária.

Esta variedade de tarefas só é possível pela existência de programas que permitem a sua realização no ambiente online, as chamadas aplicações. Segundo o dicionário de termos técnicos “Tech Terms”, aplicação é “um programa que roda no seu computador” e que “possui alguma aplicação para o usuário” . Essas são congêneres dos tradicionais softwares, que permitem a execução de tarefas em um computador. A diferença está no escopo. Como o presente trabalho tem como objeto a camada de aplicações e conteúdo da Internet, serão analisados aqueles que dependem de alguma forma da Internet, seja na sua execução integral ou parcial em dispositivos conectados.

Não entram aqui, portanto, os programas que rodam offline (como um editor de texto, uma calculadora ou um jogo, usados independentemente de conexão). A dependência integral implica o condicionamento do funcionamento completo à conexão à Internet (como navegadores ou serviços de streaming). Já a parcial envolve apps cujas funções de alguma forma são alimentadas ou alteradas por dados transmitidos pela Internet, mas seu uso pode ser feito também de forma offline (como um mensageiro ou mapa). É importante destacar que o tipo de terminal e a existência da conexão não são os critérios determinantes. É possível usar aplicações no celular que não pertencem a essa camada da Internet (como um editor de texto ou uma galeria de fotos) e há programas em desktops que dependem de alguma forma da conexão à Internet, como navegadores ou gestores de e-mails (Outlook e afins).

São objeto da presente investigação também os websites que disponibilizam conteúdos ou ofertam algum tipo de serviço. Integram esse universo blogs, sites, portais e plataformas, entre outros. O modelo hegemônico constituído historicamente na Internet é a World Wide Web (WWW), por meio da qual sites são acessados a partir de endereços (www.intervozes.org.br, por exemplo). Na estrutura básica, o conteúdo é apresentado por meio de interfaces gráficas que reúnem diferentes tipos, como texto, imagens, áudios e vídeos. Esses conteúdos são vinculados a outros por meio de hiperlinks. A diferença entre websites e aplicativos nem sempre é clara, com muitos exemplos que reúnem tanto a oferta de conteúdos quanto de serviços. Ao longo do presente documento, o intuito será buscar apreender essa complexidade sem classificações rígidas, mas apontando categorias quando forem necessárias para a análise. A seguir, serão apresentados alguns tipos de atores e fontes de conteúdos relevantes para a análise a ser feita nas próximas seções.

A seguir, detalharemos nosso exame da camada de aplicações e conteúdos dando especial atenção a três tipos de fenômenos que consideramos centrais neste universo: (1) o ascenso das plataformas, (2) o jornalismo online e (3) os bens culturais. O primeiro envolve agentes que se tornaram os maiores espaços de interação interpessoal e pública entre indivíduos, coletividades e instituições. O segundo envolve uma modalidade de conteúdos e fontes de informação protagonista na leitura cotidiana da realidade e na organização do debate público sobre os temas de relevância da sociedade. O terceiro abrange a produção e o consumo de manifestações simbólicas centrais na vida humana e que contribuem para a reprodução das identidades e visões de mundo.

O ascenso das plataformas

Um tipo de agente com visibilidade crescente na camada de aplicações e conteúdo e que merece atenção para compreender o grau de diversidade e pluralidade na Rede são as plataformas. Google, nome do maior site de busca do mundo, tornou-se mais que uma denominação e assumiu a condição de verbo que denota a procura de informações, explicações ou respostas. O que antes era um espaço para encontrar sites, como Yahoo! e Altavista, assumiu a condição de referência absoluta para qualquer dúvida que uma pessoa possa ter. O ato de comprar também vem se tornando cada vez mais online. Sites como Amazon, EBay, Alibaba e outros são espaços que reúnem uma variedade de produtos muito maior do que lojas de departamentos mais robustas, como Walmart, poderiam imaginar .

Outros segmentos econômicos têm sido marcados pelo ascenso das plataformas e pela participação crescente em mercados. É o caso do transporte individual pago. Nos Estados Unidos, até 2020 mais de 20 milhões de adultos devem ser usuários regulares deste tipo de serviço . A chegada e a regulamentação do serviço do Uber e de similares em diversas localidades vieram acompanhadas de intensas polêmicas por parte dos tradicionais controladores deste mercado: os taxistas. No segmento de aluguel de quartos, a plataforma Airbnb se tornou a maior intermediadora do planeta, com 160 milhões de hóspedes e 3 milhões de anúncios em mais de 65 mil cidades em 191 países.

As plataformas são mediadores que colocam em contato diversos agentes para a aquisição de um bem ou serviço (como a compra de um produto na Amazon ou o download de um aplicativo na Apple Store), para a interação social (como o Facebook ou Snapchat) ou para a realização de atividades específicas (a busca por um local para passar uma noite ou temporada no Couchsurfing). Entre os pesquisadores do tema, há definições diversas para as plataformas: Online Platforms (European Commission, 2016), Peer-to-peer Services (Ahmad e Schreyer, 2016), Digital Platforms (Ejik et al., 2015), Technological Platforms (Gawer, 2014) ou simplesmente Platforms (Van Gorp e Batura, 2015). No presente texto, adotamos a terminologia plataformas digitais.

As plataformas digitais são espaços/agentes de mediação, constituídos em cima de uma base tecnológica, em que ocorrem diferentes atividades e interações, pelos quais são transacionados serviços e conteúdos e que têm como traço distintivo sua atuação no ambiente conectado, mesmo que não necessariamente em um endereço www (como no caso dos aplicativos). Esse papel de mediação não é algo novo e já vem sendo desempenhado por agentes como operadoras de cartões de crédito ou imobiliárias há muito tempo. Mas as plataformas digitais possuem uma série de características que as diferenciam tanto desses atores quanto de sites ou aplicativos normais:

1. Acesso a outros lados

Uma das características centrais desses espaços é a sua configuração como “mercados multilados” (multisided markets), ao terem como serviço central a oferta a seus usuários de contato com os demais lados. Isso os diferencia de empresas tradicionais marcadas pela aquisição de matérias-primas e o emprego da força de trabalho para processá-las na forma de um produto a ser vendido no mercado . O negócio principal é a oferta desta conexão entre os vários lados, seja ela voluntária (um comprador que procura por um produto de uma empresa no Alibaba) ou involuntária (um usuário do Twitter exposto à publicidade de anunciantes). Esse esforço de conectar os vários lados, em geral sendo um deles o de usuários e consumidores, faz com que as plataformas em geral ofereçam seu serviço gratuitamente a este contingente, uma vez que precisam dessa base de usuários para que fornecedores possam ofertar seus produtos e serviços. Evans e Schmalensee (2016) dividem esses grupos em “lado do dinheiro” (money side) e “lado do subsídio” (subsidy side). A precificação deve responder à necessidade de fazer com que o primeiro lado compense não somente os custos diretos de produção mas aqueles associados à inclusão dos usuários no segundo lado. Associado a essa característica está o efeito de rede (network effect), já mencionado. Quanto maior o número de usuários em cada um dos lados, mais opções o outro lado terá para a consecução de seu objetivo (seja ele a aquisição de um bem ou serviço, interação, difusão de conteúdos ou realização de uma atividade específica). Esse atributo cria uma lógica que potencializa os agentes líderes. Se uma pessoa deseja comparar preços de produtos, a plataforma com maior número de opções será mais atraente.

2. Natureza tecnológica

As plataformas digitais são sistemas tecnológicos, especificamente baseados em Tecnologias de Informação e Comunicação. Enquanto tais, elas têm na inovação um vetor central do seu desenvolvimento. Sua arquitetura técnica e funcionalidades fazem parte da sua natureza e são elemento crucial de diferenciação na concorrência no mercado. Essa busca pela diferenciação pode se dar no próprio produto e ou serviço provido (como o caso do mecanismo de busca do Google, que fez da empresa monopolista absoluta em seu mercado, ou da qualidade dos softwares e hardwares Apple, cujo exemplo é o iPhone, até hoje um marco em dispositivos móveis). Mas também pode ocorrer em funcionalidades específicas ou condição que garante a um serviço um desempenho melhor ou qualificado (como a invulnerabilidade a vírus de distribuição de sistemas operacionais Linux, a garantia de privacidade de navegadores Mozilla ou o recurso de “stickers” em grupos no Telegram). A natureza tecnológica faz com que essas empresas atuem em uma lógica de busca constante pela inovação. Uma vez conquistada uma tecnologia única transformada em um negócio estruturado, os ganhos econômicos se dão de forma expressiva. Essa dinâmica tem exemplos como os já citados Google e Apple, mas também ocorreu no caso da Microsoft e de seu Windows, do Facebook e da Amazon, entre outras empresas.

3. Operação baseada na Internet

As plataformas digitais são agentes operados por meio da Internet. Esta permitiu um acesso mais fácil aos integrantes de cada um dos lados (o AirBnb não precisa ir a uma cidade ou abrir escritório nela para que uma pessoa se inscreva nele) e, por outro, o acesso de integrantes de cada lado uns aos outros (um comprador encontrar um bem no eBay de alguém em outra cidade sem precisar sair de casa). Para alguém com acesso à web , essa capacidade abriu espaço para que cada vez mais agentes pudessem atuar em escala internacional e não somente restritos a seu mercado de origem. Isso, contudo, não significa necessariamente uma maior concorrência. Sendo muitas dessas plataformas baseadas em serviços e produtos informacionais (a fruição de um vídeo no YouTube, uma encomenda no eBay ou uma interação no Tinder), a capacidade de intercomunicação da Internet potencializou a oferta e a prestação desses serviços e produtos, a troca de conteúdos e as interações entre as pessoas. Embora muitas dessas plataformas tenham parte das suas atividades no mundo offline (o carro compartilhado na ZipCar ou o produto adquirido pelo Etsy), sua ação central depende do contato e das ações e relações construídas por meio da Internet (seja na interface direta da aplicação, seja na interface por meio de navegadores).

4. Uso intensivo de dados

Uma última e talvez mais importante marca das plataformas digitais é o uso intensivo de dados em todas as suas atividades. Se o principal negócio das plataformas é a conexão entre pessoas nos vários lados, é preciso descobrir as demandas de cada usuário e onde está o outro (de um lado diferente ou do mesmo) que pode responder a elas da melhor forma. Para isso, esses sites coletam quantidades monumentais de dados e usam seus sistemas de análise para identificar comportamentos, gostos e interesses que podem ser traduzidos em bens e serviços ofertados (as sugestões de livros, filmes e outros produtos da Amazon, por exemplo). Da mesma maneira, usam essa base de informações para disponibilizar informações a prestadores de serviço públicos mais suscetíveis e que possam se transformar em possíveis clientes (como nos mecanismos de publicidade personalizada de Google e Facebook).

As plataformas digitais podem ter como foco diversas áreas e serviços. Não é objeto do presente trabalho fazer um debate exaustivo acerca dessa classificação. Para efeito da análise, a opção será separar as plataformas em:

1. Comércio/revenda

Atividade principal é a venda de produtos de terceiros (Amazon, eBay);

2. Sites de Redes Sociais

Atividade principal é a interação entre pessoas e grupos, podendo ser pela difusão de conteúdos em modelos como “murais” e “linhas do tempo” (Facebook, Twitter) ou somente por meio de mensagens (WhatsApp, Facebook Messenger);

3. Sistemas de aplicações

Atividade principal é organizar e ofertar um conjunto de aplicações para uso em dispositivos pessoais, como sistemas operacionais e lojas de aplicativos (Windows, Linux, Android/Play Store, IoS/Apple Store);

4. Compartilhamento de bens, serviços e atividades

Atividade principal é a troca e o compartilhamento de serviços, bens, tempo e trabalho físico ou intelectual (todo universo da sharing/collaborative/gig/on demand);

5. Circulação de conteúdos

Atividade principal é a divulgação de conteúdos culturais, informativos e científicos (YouTube, iTunes, Spotify, Soundcloud, Vimeo, Wikipedia, Researchgate, Academia.edu).

Ao ter como foco a pluralidade e a diversidade na web, o presente trabalho dedicará maior atenção às plataformas de circulação de conteúdos e às redes sociais. As demais modalidades serão tratadas apenas se sua atuação impactar de alguma forma o debate público na arena da Internet. A delimitação do objeto e os métodos de análise serão discutidos de forma mais detalhada em seção posterior.

Jornalismo online

Outros agentes importantes da camada de conteúdo são os sites noticiosos. Desde a primeira onda de popularização da Internet, a partir dos anos 1990, a web serviu como um novo espaço para buscar informações. Essa prática se ramificou em diversas fontes, dos sites de busca a enciclopédias online como a Wikipedia. Mas o acompanhamento da dinâmica cotidiana passou necessariamente pela proliferação de páginas jornalísticas na web.

O jornalismo online se constitui a partir do contexto das lógicas convergentes propiciadas pela Internet e pela digitalização, do paradoxo dos agentes tradicionais de se colocarem nesse novo ambiente sem fagocitar os negócios originais e pela tentativa de entrada no mercado de novos atores, profissionais, semiprofissionais e não profissionais. Por um lado, a lógica convergente favorece grupos empresariais montados a partir da propriedade cruzada de meios e que já possuíam rádios, TVs e jornais, possibilitando o aproveitamento de material dessas diversas mídias no mundo online. Por outro, o ascenso da web como fonte de informações ataca o modelo de negócios desses grupos centrado nos seus meios tradicionais.

Essa situação faz do jornalismo online algo instável e complexo. Albornoz (2011) identifica uma série de tensões neste cenário, tais como: o dilema entre a gratuidade e o modelo de negócio pago, gerador de receitas com assinaturas, mas que abre a possibilidade da perda de audiência e, consequentemente, de receitas de publicidade; o dilema entre o perfil generalista e a informação especializada, tanto do ponto de vista temático quanto regional; a escolha entre a cobertura das notícias quentes do dia em tempo real (as chamadas hard news) ou a profundidade ou a busca por coberturas com conteúdo exclusivo e diferenciado; as possibilidades de participação do usuário e de uso da interatividade, que podem desconstruir a lógica de fluxo unidirecional da informação adotada historicamente e que ajudou a consolidar a referência desses veículos; e a dificuldade de atrair a atenção de leitores em um cenário de oferta crescente e de novas formas de consumo noticioso.

Do ponto de vista das lógicas de funcionamento, a base da produção noticiosa é o texto, mas esta vem incorporando diversas outras linguagens dentro da dinâmica convergente. Dos portais tradicionais àqueles menos estruturados, a disseminação de vídeo e áudio passou a ser uma diretriz importante nesses websites. O recente papel mediador central das redes sociais, que em diversos casos privilegia o alcance de conteúdos em vídeo, é um fator multiplicador dessa linguagem. O mesmo ocorre com o uso de imagens informativas, sejam elas infográficos ou peças humorísticas conhecidas como memes.

Outra característica do jornalismo online é a agudização da lógica conhecida no meio jornalístico como “tempo real”. Com a ampliação da conectividade, da diversificação de fontes de informação e da capacidade de publicar com muita rapidez, a corrida pela notícia em primeira mão virou algo ainda mais complexo. Profissionais de veículos por vezes transmitem ao vivo acontecimentos de forma comentada. Esta capacidade de publicação também permitiu que os próprios indivíduos, antes fontes dependentes da cobertura dos meios, pudessem eles próprios postar em perfis, sites ou mesmo transmitir ao vivo em diversas situações. Isso, contudo, não significa que essa modalidade funcione apenas com o “tempo real”. Rost (2006, p. 209) sugere uma classificação dessas várias temporalidades entre sincrônica (transmitida em tempo real), recente (conteúdos atualizados ao longo do dia), prolongada (conteúdos que permanecem nas páginas e consolidam histórias e coberturas) e permanente (informações que ficam sempre nas seções dos sites).

Na produção noticiosa online, a redução extrema de limites físicos (a não ser a capacidade de armazenamento do servidor) sugeriria a possibilidade da elaboração de textos e conteúdos mais longos e detalhados. E isso ocorre em alguns sites com perfis de materiais mais aprofundados ou mesmo artigos. Contudo, a superexposição a informações na Internet produziu efeito contrário. Em sites profissionais de jornalismo online, o perfil dos textos é curto e direto, opção motivada pelo entendimento de que o consumo de conteúdos na Rede é instável e dinâmico, havendo a dificuldade de prender a atenção dos usuários por muito tempo.

O acesso a notícias de forma constante e personalizada tem como elemento amplificador o uso cada vez maior de smartphones para o consumo de notícias (Reuters, 2017). Ao mesmo tempo, este movimento vem acompanhado de investidas de veículos de mídia em novas formas de difusão de conteúdo por meio de aplicativos próprios. O lançamento de aplicativos de notícias também coloca outros atores, notadamente plataformas (cujo papel crescente será desenvolvido abaixo). Exemplos são o Apple News e o Snapchat Discover . Outra modalidade de aplicativo que vem crescendo, segundo o relatório Digital News Report 2017 (Reuters, 2017), são os assistentes pessoais ativados por voz, como o Amazon Echo.

Essa superexposição a informações abriu espaço para que grandes intermediários passassem a ter um papel central na disponibilização de notícias. É o caso, por exemplo, dos mecanismos de busca, acionados quando o usuário ativamente procura uma informação específica. Ou das redes sociais, que concentram cada vez mais a atenção dos usuários e se tornam a porta de entrada para outros conteúdos na web. A emergência dessas plataformas digitais colocou um novo desafio para as páginas de jornalismo online, pois a concentração de tempo dos usuários vem desestimulando práticas de navegação até então tradicionais, nas quais o usuário ativamente entrava em seus sites preferidos. Segundo o relatório Reuters Digital News Report 2017 , do Instituto Reuters, entre 2013 e 2016 as redes sociais ganharam espaço como fonte de informações, se aproximando da TV.

Fonte: Reuters, 2017

O consumo de notícias mediado pelas plataformas ganhou visibilidade não somente nos meios profissionais e acadêmicos mas no conjunto da sociedade, com a emergência de dois fenômenos: as bolhas de informação e as chamadas “notícias falsas” (fake news). Pariser (2011) cunhou o termo “bolha de filtro” (filter bubble) para designar o processo de personalização aguda da experiência dos usuários de Internet promovido por sites e plataformas, movido pela coleta massiva de informações, pela identificação de preferências e pelo direcionamento das experiências, serviços e acessos de cada usuário a partir disso. “A nova geração de filtros da Internet olha para as coisas que você aparentemente gosta – as coisas que você fez, ou as coisas que pessoas como você gostam – e tenta extrapolar. Eles são máquinas de previsão, constantemente criando e refinando a teoria de quem você é o que vai querer fazer depois. Juntas, essas máquinas criam um universo único de informações para cada um de nós – o que eu chamei de bolhas de filtros – que fundamentalmente alteram a forma como nós encontramos ideias e informação” (PARISER, 2011, p. 10).

Este fenômeno passou a provocar preocupações com o aumento da polarização política e da radicalização de discursos de ódio. Ambientes em que informações circulam dentro daquilo que cada usuário concorda ou “curte” podem produzir uma espiral de afirmação de sua visão e de desqualificação das demais, uma vez que o debate e o contraditório somem cada vez mais das linhas do tempo. Associado a este fenômeno está o das chamadas “notícias falsas” (fake news). Em que pese o próprio termo ser polêmico e contestado por diversos setores (uma vez que pode envolver diferentes formas de desinformação e conteúdos inverídicos), preliminarmente ele será adotado aqui a partir da definição de Allcott e Gentzkow (2017, p. 4): “artigos noticiosos que são intencionalmente falsos e aptos a serem verificados como tal, e que podem enganar os leitores”. Essas informações encontram na Internet, em especial nas redes sociais, terreno fértil pela facilidade de disseminação. Um levantamento da Universidade de Columbia apontou que 59% dos links compartilhados na amostra analisada não chegaram sequer a ser clicados antes do compartilhamento (GABIELKOV, 2016).

Embora não seja o foco nem haja espaço para desenvolver essa problemática neste trabalho, é válido realizar um registro sobre os riscos do debate associado às chamadas “fake news”. O fenômeno tem sido encarado pelos mais diversos agentes com soluções que ameaçam a liberdade de expressão, como a criminalização da prática ou a responsabilização de intermediários, estimulando uma cultura de remoção indiscriminada de conteúdos online. As plataformas devem, sim, ser submetidas a regras de transparência e não discriminação de conteúdos, mas nem elas nem a mídia tradicional nem autoridades policiais podem se arvorar o direito de definir o que é verdade, ou informação completa ou não.

Embora o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação seja uma constante desde o nascedouro do jornalismo online, em anos recentes alguns recursos surgiram com o potencial de alterações substantivas na atividade. É o caso, por exemplo, da realidade virtual e da realidade aumentada. Essa tecnologia permite a realização de um “jornalismo imersivo” (DE LA PEÑA ET AL., 2010) no qual o leitor é colocado em um ambiente virtual e ali pode explorar informações disponíveis, alterando o modo de fruição passivo tradicional do consumo jornalístico. Segundo os autores, a experiência mais rica aproxima o participante do evento, construindo um engajamento mais efetivo, especialmente em um momento em que o volume crescente de conteúdos ofertados pode produzir insensibilidades e dificuldades de apreensão contextualizada de eventos e fatos.

Outra tendência do emprego da tecnologia no jornalismo online é o uso intensivo da análise de dados, naquilo que vem sendo conhecido como “jornalismo de dados”. Esse processamento sofisticado permite a identificação de relações e inferências dificilmente perceptíveis pelo olhar do profissional de imprensa. A adoção de algoritmos avança inclusive para a substituição total ou majoritária de diversas funções dentro das redações, inclusive a própria apuração e redação. Em janeiro de 2017, foi noticiada a primeira publicação de uma matéria redigida por um robô (GAUDIN, 2017) na China, que levou um minuto para elaborar um texto de 300 caracteres.

Apesar de características gerais, seria inadequado homogeneizar essas páginas noticiosas. Elas possuem diferentes perfis, escopos e alcances. Em uma divisão preliminar para efeitos explicativos, poderíamos separar o universo desses sites em alguns grandes grupos. O primeiro, pioneiro, seria formado pelos portais de grupos de comunicação atuantes em outras mídias, como jornais, TVs e rádios. O segundo envolveria aquelas páginas criadas especificamente para a web, sem vinculação direta com nenhum outro veículo. O terceiro incluiria blogs e sites de pessoas ou coletivos que aproveitaram a possibilidade de publicação da Internet para difundir conteúdos. Essas páginas, no entanto, não necessariamente o fazem de forma não profissional. Os blogs podem também ser páginas de profissionais de veículos de comunicação e estarem vinculados aos sites dessas mídias.

Por fim, um quarto grupo poderia ser classificado como portais agregadores de conteúdo. Estes não necessariamente possuem o mesmo tamanho nem o mesmo perfil. Podem ser tanto eles próprios veículos de grupos de comunicação com perfil empresarial e que reúnem exemplos de qualquer um dos três grupos, ou dos três (como o UOL), ou podem não ter finalidade lucrativa e se basear em formas não ou semiprofissionais bem como de formas de remuneração alternativas (como o Portal Fórum ou a Mídia Ninja). Essa classificação não se pretende definitiva nem proceder a uma separação rígida; é apenas um recurso a ser utilizado mais à frente no momento da análise para compreender as especificidades dos sites noticiosos na Rede.

Bens culturais

Outro segmento da camada de conteúdo e aplicações central para a expressão da pluralidade e a diversidade de visões e manifestações são os bens culturais. Neste grupo de conteúdos a Internet já vem há bastante tempo tendo forte impacto, reorganizando ou até mesmo mudando estruturalmente indústrias importantes, como a fonográfica e a fotográfica. Um primeiro impacto está relacionado à própria natureza desses bens. A sua base imaterial gera uma série de dificuldades para a subsunção à lógica capitalista de produção, distribuição e consumo de mercadorias. Por ser um bem “não rival” (ele não se esgota com seu consumo), pode ser reproduzido à exaustão e com baixo custo (GARNHAM, 1990). Um dos grandes desafios dos capitalistas de como lucrar com esses bens é exatamente encontrar uma forma de impedir sua livre reprodução e controlar o seu consumo. Uma das soluções desenvolvidas foi o estabelecimento de direitos autorais e a consequente criminalização da sua violação, comumente conhecida como “pirataria”. Uma vez que as indústrias fonográfica e cinematográfica tinham seus modelos calcados na venda de unidades (um filme ou um disco), a possibilidade de reprodução no ambiente digital ameaça o lucro de forma mais efetiva do que no caso da radiodifusão, financiada por meio de publicidade.

Com o avanço das tecnologias de reprodução e a disseminação da Internet, esse desafio ganhou uma magnitude antes inimaginável. Embora já fosse possível “piratear” um disco gravando uma fita, por exemplo, a combinação destes dois recursos técnicos permitiu o acesso extremamente facilitado a músicas, vídeos, textos e fotos. Esta disputa se transformou em uma guerra nas últimas duas décadas. Programadores desenvolvem ferramentas para reproduzir e circular produtos culturais e a indústria fonográfica e cinematográfica atua para cercear essa prática de diversas maneiras. Processos contra sites, como foi o notório caso do sistema de download Napster, tornaram-se comuns. Contudo, a facilidade de criar novos sites e ferramentas (alguns inclusive sem qualquer repositório central, como no caso da tecnologia torrent) fez com que a indústria promovesse novas táticas de repressão. Legislações em diversos países foram aprovadas endurecendo as sanções para quem baixasse “conteúdo pirata”, inclusive com suspensão da conexão.

Mas outras estratégias também foram elaboradas. A venda de licenças de uso (para livros ou músicas, por exemplo) e não do produto em si é uma maneira de tentar impedir o consumo múltiplo ou por mais pessoas daquele bem cultural. Ao comprar um e-book na Amazon, por exemplo, o usuário não adquire o direito de baixar um arquivo de texto e repassar a quem quiser, mas pode acessar o livro dentro de dispositivos compatíveis. A personalização já mencionada foi um instrumento importante, uma vez que vincula o consumo às contas do usuário. O modelo das licenças de uso já havia se consolidado no mercado de softwares (este também outro produto imaterial, com a mesma característica “não-rival” dos bens culturais) e foi expandido para o setor audiovisual. Por meio dele, plataformas digitais como a Amazon oferecem, no seu serviço de vídeo, o acesso não apenas mediante licença mas podendo ser temporário, aplicando o princípio das antigas videolocadoras.

Outra dimensão da natureza desses produtos é o fato de, pelo seu aspecto simbólico, não haver garantia de que um filme ou música atendam a uma necessidade de um consumidor, como seria o caso, por exemplo, da fabricação de um sapato. A esse atributo Bolaño (2000) dá o nome de “aleatoriedade da produção cultural”. Um filme lançado pode ser um sucesso ou um fracasso. Para evitar isso, as indústrias atuam de diversas formas. Todo o papel de “produção” de filmes, programas ou discos vai neste sentido, de lançar obras de acordo com aquilo que pode ter retorno e evitar o fracasso. A homogeneização da produção cultural está muito relacionada a essa condição. A busca pelo gosto médio de acordo com o apelo do momento (parâmetros que mudam com o tempo) é um esforço neste sentido. Com altos custos de criação e produção e baixos custos de reprodução, a aposta em uma obra sempre vinha cercada de incertezas.

O advento da Internet não mudou esta dimensão da produção cultural, mas provocou alterações importantes. No mercado fonográfico, o primeiro movimento foi o de comercialização de músicas individualmente, cobrando pelo download. A plataforma iTunes, da Apple, foi um paradigma neste sentido. Contudo, esse fenômeno vem decaindo. Relatório da entidade representativa da indústria fonográfica sobre o estado da arte do setor em 2017 (IFPI, 2017) apontou uma queda de 20% das receitas com download de músicas. O segundo movimento envolveu a oferta do acesso a catálogos de produtos a um preço determinado, popularmente conhecido como streaming. Esse modelo inverteu a lógica calcada na comercialização de unidades do produto (o disco, o single, o filme) para o acesso ao serviço. O mencionado relatório da IFPI indica que, entre 2015 e 2016, houve aumento de 60% nas receitas desses aplicativos (IFPI, 2017).

No audiovisual, a transição vem ocorrendo diretamente para o segundo modelo, o de assinaturas de acesso a catálogos. Este já havia sido constituído antes do ascenso da Internet na figura dos serviços de TV paga (em que o usuário assina o acesso a um pacote de canais). E migrou para a Internet, com uma combinação entre pacotes especiais das operadoras de TV paga, que passaram a ser acessíveis pela web e não apenas pelo decodificador ligado à TV (como o Net Now); a oferta direta de serviços de streaming por canais ou programadoras (como Globo Play ou HBO Go); e catálogos ofertados por novos atores (Netflix, Hulu e Amazon Video).

Diferentemente do segmento musical, no de vídeo o acesso a catálogos gratuitos ascendeu à condição de serviço de maior alcance por meio do YouTube. A plataforma abrange conteúdos exclusivos e pontuais publicados por qualquer usuário; reproduções de obras (audiovisuais e sonoras) de uma gama extremamente ampla de artistas e fontes de informação; espaços de conglomerados tradicionais (como o Vevo, da Sony Music); e canais diversos com alcances distintos. Neste último grupo, a ascensão de canais com grande número de seguidores originou o tratamento dos responsáveis por esses conteúdos com um tipo específico de ator, denominado de “youtuber”. Embora no segmento musical haja aplicativos gratuitos em que usuários podem livremente se cadastrar e publicar suas músicas (como Soundcloud ou Bandcamp), em termos de alcance este modelo é minoritário frente ao catálogo de bandas contratadas por gravadoras.

Ao permitir que aplicativos ofertem serviços ao mundo inteiro sem grandes custos de distribuição, a Internet supostamente permitiria uma ampliação da diversidade de manifestações culturais, afirmam os apologetas da web. Essa premissa, contudo, desconsidera que a Rede se conforma a partir da lógica capitalista. A majoração do alcance por meio da Internet produziu um fenômeno paradoxal. Se por um lado há espaços abertos a usuários que queiram publicar obras sonoras ou audiovisuais (como as plataformas já citadas), por outro esta dimensão internacional e a intensificação da concorrência neste mercado levaram a uma concentração, em escala global, em grandes conglomerados.

Com o advento da web e da convergência das indústrias de mídia, audiovisual e de telecomunicações, especialmente no âmbito do crescimento da Internet, o processo de centralização das indústrias culturais avançou. No momento de fechamento da presente pesquisa, a Time Warner articulava o aceite da sua fusão com a AT&T, representando a união da principal empresa de conteúdos dos EUA com uma gigante das operações de telefonias e acesso à Internet. No plano regional e nacional, a mexicana Telmex reúne operadoras de TV paga, empresas de telefonia celular, serviços de acesso à Internet e aplicativos também na camada de conteúdo. Embora a Internet seja marcada pela presença de novos atores, mesmo esses já protagonizaram fenômenos de rápida centralização, como é o caso dos conglomerados Google/Alphabet, Apple, Amazon, Facebook e Microsoft.

Bustamante (2017) defende que este processo penaliza especialmente as regiões e culturas minoritárias, afetando a diversidade. Para galgar espaços de mercado e lidar com os desafios da dimensão simbólica destes bens, as empresas do setor radicalizam a lógica de concentração e centralização da economia capitalista.

1 Definição disponível em: https://techterms.com/definition/application.
2 A Amazon é o principal exemplo. Originalmente um site de comércio eletrônico de livros, a empresa passou a vender todo tipo de bem e serviço e afirma ter em seu catálogo centenas de milhões de produtos (European Commission, 2016, p. 10). Além disso, ela passou a misturar ambientes on e offline, com lojas para retirada e venda de produtos e até mesmo mercearias automatizadas. No início de 2017, o conglomerado negociava com a Via Varejo, controladora das Casas Bahia e do Ponto Frio.
3 Statista. Number of U.S. adults using transport sharing economy services from 2014 to 2020. Disponível em: https://www.statista.com/statistics/289861/number-transport-sharing-economy-users-us/.
4 Airbnb. About us. Disponível em: https://www.airbnb.pt/about/about-us.
5 O Airbnb conecta proprietários de quartos com pessoas interessadas em alugá-los. A Google Store disponibiliza aplicativos de desenvolvedores a usuários que demandam soluções em seus dispositivos. O LinkedIn mostra perfis de profissionais a firmas ou agências de contratação. A Bandcamp oferece músicas e informações de bandas a ouvintes interessados.
6 Há plataformas digitais com funcionalidades específicas, como mecanismos de busca ou desenvolvimento de sites. Essas podem ser identificadas ao longo do trabalho, mas não chegam a configurar um segmento específico dentro do universo online.
7 Essas iniciativas nublam a diferença entre “conteúdos” e “aplicações” na camada em análise no presente trabalho. Essa dificuldade será abordada mais à frente, no momento de discussão dos métodos de análise.
8 Tradução própria do original em inglês: “The new generation of Internet filters looks at the things you seem to like — the actual things you’ve done, or the things people like you like — and tries to extrapolate. They are prediction engines, constantly creating and refining a theory of who you are and what you’ll do and want next. Together, these engines create a unique universe of information for each of us — what I’ve come to call a filter bubble — which fundamentally alters the way we encounter ideas and information”.